sábado, 5 de fevereiro de 2011

Quero férias de mim

Todas as vezes que vou ao dentista, desmaio. Tenho tanto medo da anestesia que depois de recebê-la minha adrenalina se mistura perigosamente com a composição do remédio e ficar consciente deixa de ser um privilégio meu.
Descobri que sou assim com relação aos sentimentos também. Sinto tanto medo de me envolver que o que acaba me fazendo mal é muito mais o meu medo do que os sentimentos em si.
A novela tem sempre o mesmo roteiro. Noites e noites sem dormir, pensamentos insistentes e auto-instrutivos e uma sucessão de irritantes impropérios.
É freio na hora de falar, é freio na hora de sentir, é freio no pressentir. É tanto "freio" que acabo quase nem conseguindo andar.
Me contenho tanto que acabo não fazendo nada de acordo com o que eu realmente queria e, fatalmente, gostando menos de mim e tornando a guerra interior mais violenta e articulada ainda.
Juro que em momentos assim eu queria tirar férias de mim. Juro que é por momentos assim que eu me policio tanto para não sentir.
Dá tanto trabalho sentir que ser oca começa parecer uma sensação deliciosamente cômoda e atrativa. É tão dolorida ser intensa que consigo então entender porque várias vezes quis ser apática.
Estou exausta e exaurida. Quando olho no espelho vejo somente o farrapo do que sobra do ser que combate todos os dias em uma guerra que está longe de acabar. Uma guerra da qual ninguém pode me salvar, porque ela é travada bem aqui, dentro mim.

Camila Lourenço

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Fácil e difícil


É fácil não dizer que estou com saudades.
Difícil é não sentir o chão ficar instável quando você passa por mim.
É fácil não contar todas as estratégias que traço para não pensar mais em você.
Difícil é não senti-las ruir quando não consigo te ignorar.
Fácil é escrever que se deve viver no presente e só.
Difícil é viver o presente sem viajar no passado nem ansiar pelo que está no futuro. (Difícil não, as vezes é um saco mesmo!)
Fácil é dizer-se forte.
Difícil é não sentir-se fraco as vezes.
Fácil é fazer-se indiferente.
Difícil é realmente estar.
Da casca pra fora é fácil muita coisa, queria que você visse é como é difícil muita coisa aqui dentro. Sentir sua falta é uma delas.



Camila Lourenço

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Hoje eu preciso de você

Eu te preciso hoje com uma urgência tão grande que chega me dá medo. E te preciso não por que te amo, ou coisa parecida. Eu preciso porque você faz com que eu me sinta viva de novo. Eu te preciso nem sei dizer ao certo por que, só sei que hoje, eu preciso de você.
Preciso de você para encostar essa barba por fazer no meu pescoço, pra segurar meu cabelo pela nuca e me tirar o fôlego. Eu te preciso para sentir meu coração batendo com o seu quando os nossos corpos se unirem num abraço profundo.
Eu te preciso por que eu te preciso. Ponto. Não me pergunte como ou por quê.
Te preciso sem promessas de um amanhã, sem pensar nas dúvidas do talvez. Eu preciso só e agora. Sem dizer nada, sem explicar nada. Só te preciso.
E não se trata de sentimento (ou talvez trate,não sei). Ouvi seus passos na varanda e não te chamei para entrar, ao contrário, sai ao seu encontro.
Vamos dar uma volta, com pressa, sem pressa, tanto faz, por que hoje eu preciso de você de qualquer jeito.
Preciso de você me devorando com esses olhos densos cor de mata.
Preciso rir das suas reações exageradas e exatamente no tamanho do meu prazer.
Hoje eu preciso de você. Só preciso.
Te preciso me abraçando forte e fazendo minha respiração simplesmente parar, e o tempo também.
Não, não tô apaixonada, claro que não. Mas é que hoje eu preciso de você.
Com pressa, sem pressa... de qualquer jeito, tanto faz, só sei que preciso.
Vem matar minha vontade, só hoje. Amanhã a gente vê o que faz, mas é que hoje eu preciso, preciso muito de você.


Camila Lourenço

Dança dos ocos

Já nem sei especificar mais qual é a falta que incomoda. Já tem tanto tempo que está sobrando falta aqui que descobrir quais são elas talvez seja o novo desafio.
E não é porque esteja sobrando falta que significa que o primeiro que chegar e me der um beijo sincero na testa e segurar minhas mãos vá ganhar meu coração.
Essa coisa de sentir é meio estranha. Oxalá ela tivesse um cabresto para ir pelo caminho que a gente acha que deveria.
Sobra falta no café da manhã, no café da tarde mas não sobra quando alguém decide matá-la.
Se "sentir" não fosse tão vital assim, talvez até desse para aninhar no colo de quem de bom grado abre os braços. Mas coração é meio insano, fica no peito mas controla todo o corpo.
Quanto mais os dias passam mais aquela esperança das borboletas dançando no estômago quando "O"s lábios me tocarem diminui.
Mas assim como eu tanta gente que tem de coração vazio também...
Vou dançar então a música dos ocos e comemorar que nessa "festa" de não sentir nada (sentir tudo pela pessoa errada) eu não sou a única a dançar sozinha.


Camila Lourenço

Dessa vez

Não, dessa vez eu não quero nenhum som. Esvaziei agora minha playlist.
Não quero também andar mais pelas mesmas ruas.
Estou esvaziando agora meu guarda-roupas e dessa vez, as peças não voltam pra lá.
Não vou assoprar a poeira dos movéis velhos e nem mandar consertar aquelas roupas que eu adorava e já não me dão mais.
Dessa vez eu quero tudo vazio. Tudo silêncio.
Cansei de percorrer a mesma estrada que leva a lugar algum.
Cansei de dançar as mesmas músicas e sentir as mesmas sensações.
Vou me esvaziar para poder me encher.
Vou me esvaziar para voltar ser eu.
Pisar com os pés descalços no chão frio. Sentir o vento bater no corpo desnudo.
Dessa vez, eu vou sem armaduras, sem auto-negação. Dessa vez não vou tentar me proteger.
Tem um arco-íris de sensações nascendo dentro de mim, e dessa vez, eu quero sentir. Sem medo, sem reações pré-estabelecidas, sem roupas previamente escolhidas.
Dessa vez eu vou só e sem nada. Dessa vez vai ser só eu e você, vida.

Camila Lourenço

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Que seja seu salto mais lindo!

Pode dar seu voo mais lindo, quero te aplaudir.
As nuvens da fumaça do incêndio que você causou já não mais me impedem de ver.
Sai tateando no escuro, tapando a boca com uma mão e com a outra tentando me firmar em algo que me desse algum rumo de onde estava a porta.
Demorei encontrar a saída...eu estava entretida nos fundos da casa, tinha me animado em conhecer cada pedacinho, e como a empolgação crescia a cada momento, nem notei quando começou o incêndio, só me dei conta quando tudo ao redor já estava destruido e escuro. Ficou difícil respirar, aquela fumaça ardida tornava cada suspiro um tormento. Achei que iria morrer. Apareceram pessoas para me socorrer, mas tiveram que ficar do lado de fora (não havia como entrar) e tive que descobrir a saída sozinha, confiando na lembrança de quando ali entrei e tudo era cor e confiando na minha audição que ouvia as vozes em meio aos ruídos de tudo que era nosso, da nossa história caindo.
Pareceu uma eternidade, e talvez tenha sido, já que esse lance de tempo é relativo. Mas, por fim consegui sair da casa, em ruinas.
Quando sai, vi que todo "meu castelo" estava destruido, reduzido a chamas, cinzas e fumaça. Respirei fundo, e naquele momento, foi meu recomeço.
Sangrei, sofri, prostrei. Alguns me levantaram, (meio que a força). Juro, ao ver tudo no chão, quis morrer junto com o que havia sido construído com tanta dedicação e vontade, mas, sobrevivi.
Aprendi, colocando tijolo por tijolo que eu poderia construir sozinha,e fiz assim, a minha nova casinha. A chave fica sempre bem guardada, alguns entram, mas até agora, somente os amigos ganharam teto permanente. É certo que já ouvi passos na varanda, mas a nenhum consegui deixar entrar de fato.
Refiz a casa, mudei o cabelo, a roupa, a música. Mudei o rumo. A fé oscilou, o ceticismo fez e faz companhia as vezes. Mas tudo bem, eu sobrevivi.
Com o que encontrei de nós nas cinzas, fiz um santuário que era pra ser seu, nosso... mas, com o tempo se tornou o santuário da minha vida, onde recebi os melhores presentes dos últimos anos.
Tudo bem, não há mais lágrima, nem dor, nem raiva. Perdoei a mim, perdoei a você, perdoei a nós.
Hoje quero celebrar seu salto e quero que você voe para o verão mais lindo que sua vida já teve. Leve com você a leveza das nossas risadas, a sensibilidade das nossas conversas, a sinceridade dos nossos sentimentos.Te dou o melhor que tivemos, quero que você seja feliz. Afinal, esse sempre foi o plano: ser feliz!
Eu aprendi andar sozinha e você agora vai voar.
Voe alto,voe muito e encontre o horizonte mais lindo que o céu pode dar.
Já ouço passos na calçada também... talvez dessa vez eu abra a porta... talvez não...não sei. Mas tudo bem, agora eu sei que se o meu castelo ruir de novo, eu tenho forças o suficiente para o reerguer.
Voe, voe alto, voe muito e seja imensamente...feliz!

Camila Lourenço

domingo, 30 de janeiro de 2011

Me salva de mim?

Sabe aquele filme que eu disse que odiei? Eu menti...eu gostei.
Menti também quando não fui profunda ao te beijar.
Menti quando não me entreguei ao te abraçar.
Contei mentiras pra mim quando olhei em seus olhos.
Menti pra você quando me mostrei tão arisca e longe de ser alcançada.
Menti.
Menti quando tirei suas mãos das minhas.
Quando pareci não me importar quando ouvi seu eu te amo.
Menti.
Mas não foram mentiras contadas, ditas. Não, não foram histórias inventadas. Foram mentiras no sentir. Menti quando te privei de mim, quando me privei de você.
Me guardei, me tranquei, me subtrai.
Quando você foi tão mágico me lembrou de um mundo que há muito eu já tinha demolido aqui dentro.
O que importa se você também é uma mentira? Eu tinha que te contar das mentiras que te fiz sentir.
Tinha que voltar, pra te contar que ninguém é tão perfeito sendo imperfeito como você.
Que nenhum nome é tão gostoso de pronunciar como o seu.
Que nenhum abraço é gostoso de sentir como o teu.
Tinha que te contar que entre lembranças, saudades e sonhos, misturo o real com o imaginário, e fica fácil acreditar que você existe. Que pode ser o dono do último beijo que ganhei.
Eu tinha que contar pra você, que todas as vezes que não me permito viver algo, é você que eu perco. É de mim que me perco.
Eu menti quando disse que conseguia respirar fundo e fazer tudo parecer menor do que realmente é.
Menti e me privei tantas vezes que nem sei se você já passou por mim. Se ficou,se demorou, se se foi.
Nem sei se você vai achar essas palavras bonitas ou não. Dá para achar algo bonito quando falta algo? Dá, dá sim, eu sei. Mas, fica assim, com esse gosto de falta, de ausência.
Você está em tudo que faço e vejo, e ainda assim, não conseguimos nos encontrar.
Hoje eu vim pra te dizer que menti. Menti porque tenho muito medo de matar essa vontade de te encontrar, de preencher esse vazio que tem exatamente o teu tamanho. Tenho medo de ficar completa de novo, de ter esse vazio preenchido e o sentido de tudo reestabelecido e depois, ter que aprender conviver novamente com o medo de te perder.
Tenho medo de te ver nas melodias que ouço. De ter do que lembrar quando olho para as ruas. Por isso minto.
Mas eu vim te contar a verdade, só pra você não acreditar em mim quando eu mentir, quando eu disser que não me importo, quando eu disser que sou forte, quando eu disser que essa coisa de amor não é pra mim. É pra mim sim!
Eu vim te contar pra você me salvar de mim.

Camila Lourenço